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Pelada na mata – William Henrique Stutz

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Noite alta. Tenho por costume acordar no meio da madrugada, principalmente com lua cheia. As sombras da mata bem em frente ao mangueirão misturadas com prata da lua são convite para passeio. Desço escadas da varanda e sigo rumo à penumbra. Vou descalço pela grama cortada baixo. Satisfeito, sinto o molhar dos pés encharcados de orvalho fresco. Esfrego peito do pé e abraço folhagens com os dedos, mato gelado e frio. Sensação boa que nem de coceira de bicho de pé.

Esbarrão nas pernas. Duquesa, nossa imensa vira-latas acordou de sono leve no tapete da cozinha e, como de costume chega aos trancos e barrancos. Eterno querer brincar. Patas sujas de terra vermelha, ficam marcas em dorso nu. Ralho com olho e dedo no focinho, ela em alegre abanar de rabo e arfante língua de fora atende de pronto. Sabe o propósito do passeio, noite de ver beleza inimaginável, sabe do silêncio a fazer.

Na boca da mata sento em tronco antigo de aroeira caída. Calço as botinas e sigo por trilha de pouco uso. Ramas e galhada escondem caminho, conheço traçado. Carrego na cabeça. Perco não. Normalmente Duquesa seguiria à frente, espantando bicho que houvesse, hoje, sabida, segue rente calcanhar. Hora outra esbarro salto da botina levinho em seu queixo. Toma por afago e gane baixinho. Um olhar duro a faz baixar as orelhas, se aquieta, menos o rabo e brilho nos olhos, esses não tem como apagar. Luz da lua desenha monstros e princesas no chão verde e nas copas das árvores. Horda bárbara em marcha silenciosa segue ligeira entre troncos ao sabor das nuvens e vento, num esconde/aparece da lua. Parecem marchar rumo a falso triunfo, Águas Sextias selaria destino. Antevejo nuvens de fantasmas em debandada. Acostumei com o recriar épicos e clássicos em caminhadas assim. A luz e suas sombras enfeitiçam. Fornalha da imaginação carregada.

O andar é calmo, os pios, gritos e rangeres são conhecidos parentes da noite, primos-irmãos meus.

Um tanto mais tarde logo vemos – Duquesa e eu – um clarão amarelo de fogueira. Nosso destino. Chegamos agachados para não chamar atenção. Apertamos o corpo bem rente ao chão de musgo e folhas secas. Botamos atenção na prosa que de lá nos chega límpida e clara, vento a nosso favor.

– Assim não! A bola é nossa!

– Jeito nenhum, ganhamos no par ou ímpar, você escolheu o primeiro do seu time, então mané, a bola é nossa.

Grita outro lá do fundo:

– Começa logo sô, a noite logo vai embora e não jogamos nada.

– Reclama não, não combinamos que não podia jogar de cachimbo?

– Ah tá, saci sem cachimbo, então me entrega seu gorro, quero ver!

– Gorro não, sem ele como viajar em redemoinho, como roubar ovo indez, como fazer galinha sair do choco. Me conta?

Pensei comigo: daí porque algumas de minhas galinhas largaram os ninhos. Eita bicho atentado.

– Outra coisa seu velho pitador, nada de dar rasteira nem canelada. Mês passado fiquei com a perna doída.

– Você que é ruim de bola e de traquinagens, ou acha que não estamos de olho em você?

– Inveja de vocês! Quem amarrou a crina do alazão bravo? Quem deu nó nas espigas de milho na roça de seu José da Novena? Euzinho – disse ensaiando um catira.

– Empurra logo esse coité e vamos jogar, com cachimbo e touca, pois é assim que somos.

Já não conseguia mais conter o riso e tive que morder o lábio para não dar bandeira.

Sei que aquele bando de miúdos brigou, brigou até o sol romper em ouro transformando a mata em quadro de Miró. Passarada a piar, corujas atentas ao jogo que não houve buscaram abrigo. No meio da clareira, só o coité solitário.

E assim como de costume, depois de exaustivas discussões sem que a pelada nem tivesse começado, gratificante banho de cachoeira e cada um, feliz da vida busca seu gomo de bambu para um belo dia de sono.

Saci é assim, em bando então. Sem pressa. Mês que vem volto com Duquesa. Virou lenda.

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